quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Gharb Al-Andaluz -O espaço domestico em meio rural



O espaço domestico em meio rural

Ao contrario das construções do período Romano feitas com aparelhos e alicerces fortes, as casas  do período Islâmico eram feitas, por norma, com argamassas pouco consistentes em que eram utilizadas sobreposições de pedras  misturadas com terra misturadas com paredes em taipa. Por isso mesmo em muitos registos arqueológicos são praticamente impossíveis de distinguir por facilmente se terem desagregado do resto do edifício.
As casas nos espaços rurais eram sempre edifícios muitos simples de alicerces sem caboucos de fundação branqueados pela cal, eram por vezes monocelulares ( de uma só habitação ) havendo também outras  com um pátio central rodeado de salas.
Em meios urbanos as fachadas dos edifícios continuavam a ser sóbrias com portas que davam acesso ao pátio interior por meio de um corredor e as poucas janelas que existiam era altas e estreitas afim de preservar o interior da indiscrição dos vizinhos. No interior e nos pátios dessas moradias, que eram espaços femininos e domésticos por natureza, cozinhavam se as refeições em lareiras feitas directamente no solo, o chamado fogo de chão.
O armazenamento de agua recolhida das cisternas ou das noras  ou directamente das nascentes era normalmente feitos com cantaros que se dispunham encostados pelas paredes das habitações.
Os alimentos eram guardados em potes e talhas nos recantos da casa e as principais reservas de cereais eram armazenadas em silos subterrâneos  por vezes abertos no interior das próprias moradias.


Os aparelhos e os materiais de construção

Os aparelhos de construção mais comuns eram a pedra e a taipa, provenientes do arredores das habitações , sendo os telhados dos edifícios em uma ou duas aguas. A taipa utilizada apresenta consistências diversas conforme a zona onde era recolhida, sendo mais compacta no litoral devido á melhor qualidade das argilas e a taipa proveniente da serra devido á terra de aluvião das ribeiras  misturadas com areão grosso e xisto acabava por não ser tão consistente.
Nas construções de pedra o aparelho de pedra usado é o pequeno e o médio. os grandes aparelhos eram usados em grandes construções tais como a alcáçova de Mérida construída no sec,. IX.
No Algarve mais oriental foram observados quatro tipos de aplicação ;
  Construções de pedra seca
  Pedra ligada com argila
  Pedra com argamassa de cal
  Pedra juntamente com taipa e modelada por taipais.
No revestimento das paredes das casas verificou se a utilização de cal e areia sobre a qual de deitava uma aguada de cal, o solos das casas mais comuns eram feitos de finas camadas de barro que se reparavam á medidas que era necessário, algumas das salas das casas podiam ser revestidas por esteiras de esparto nas áreas de dormir sobre as quais se deitava uma cama ou enxerga.
As casas normalmente eram de um piso só, embora existissem algumas com piso superior. Estes pisos superiores com acesso por escada, que normalmente se situava no pátio central, poderiam ter quartos ou galerias, havendo algumas que poderiam ter açoteias.
Os tectos das casas seriam de telha vã ou poderiam ser cobertos com caniços unidos com argila, técnica que ainda hoje se pode ver no Algarve actual.
As telhas tal como o imbrex Romano eram de meia cana havendo porem ligeiras diferenças sobretudo na curvatura sendo que no período Emiral/Califal foi pratica corrente a decoração nas telhas tornando se mais raro nos períodos seguintes ( Almoravida e Almoada).




A estrutura das casas

As casas rurais tinham habitualmente um pátio com uma ou varias salas em redor  em redor como fonte de iluminação e de calor. As aldeias no campo ou ao longo dos caminhos iam aumentando consoante o agregado familiar com acrescentos em torno da casa paterna ou com o alargamento da povoação para áreas mais próximas do habitat natural. As grandes alcarias teriam já os espaços bem organizados, as ruas afluíam para uma pequena praça onde poderia haver uma mesquita ou banhos públicos. Os alicerces dos edifícios eram habitualmente feitos sem caboucos e assentando directamente no afloramento rochoso, contudo no castelo de Salir foram observados alicerces com roços pouco profundos na pedra calcaria . Nas paredes de taipa assentes sobre um soco de pedra, esta base pode ter apenas duas ou três fiadas horizontais de pedras com argamassa e terra.

Obrigado Dra. Helena Catarino
Fotos - Jose Alberto Ribeiro

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Bocal de cisterna

Museu Arqueologia de Silves
Bocal de cisterna
Período Islâmico
Século XII / XIII








sábado, 18 de março de 2017

Capitéis do Al-Andaluz

"O capitel como elemento arquitectónico é a parte superior de uma coluna ou pilar e a sua função é transmitir o esforço do peso para o fuste que é a parte intermédia entre a coluna e a base "




No Al-Andaluz em termos arquitectónicos nunca foi imposto um "cânone" para seguir um determinado estilo como era habito nos edifícios da época clássica, embora existissem diversas constantes estilísticas e elementos predominantes tais como os arcos e os gessos, em que cada edifico apresenta peculiaridades que o diferencia dos demais.
No caso dos capitéis assistiu-se a uma evolução continua, se numa primeira fase durante o emirado de Córdoba foram reutilizados capitéis de edifícios Romanos, assim como doricos ou jonicos mais estilizados, já durante a época Califal são característicos os capitéis em " ninho de vespa" e com motivos vegetais, existindo alguns também com palavras dirigidas a Allah e aos governantes da época.




No século XII com o domínio Almoada surge uma nova reinterpretação dos capitéis, caracterizada por uma geometria simples e uma austeridade notória nas suas construções mas rapidamente conduziu a um dos momentos de maior esplendor particularmente na arquitectura. Mantiveram como suporte os arcos e pilares da época anterior, Almoravida.




Durante o período Nasrida os capitéis respeitavam o traço original Almoada não trazendo originalmente grande evolução de inicio, mais tarde com o desenvolvimento cultural Nasrida surge a coluna de fuste cilíndrico e o capitel de dois corpos , um cilíndrico decorado com faixas e um outro cúbico com ataurique.


Fotos : José Alberto Ribeiro

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O arco Islamico em ferradura

Situado no interior do arco da vila, constitui uma das principais entradas em cotovelo na cidade de Faro e remonta ao século XI

O arco de ferradura é uma das muitas formas que este elemento construtivo pode apresentar. Tem uma característica específica: o arco continua depois das suas nascenças, descansando nas impostas, para além da linha que contem o centro da circunferência. Dos Visigodos passou à arte Hispano-Muçulmana e, dali passou à arte moçarabe e à arte mudejar. Os historiadores dividem se quanto á sua génese:

- Gomez-Moreno, considera o arco de ferradura de origem peninsular e anterior a invasão árabe.
- Auguste Choisy considera que o arco aparece pela necessidade construtiva de se fazer um recuo nas nascenças, para colocação da cofragem.
- Henry Martin conclui que a arte árabe importou da Pérsia as cúpulas, os arcos de ferradura e os arcos polilobados.
- Creswell considera que este arco foi ditado por primitivas estruturas de madeira em que uma cobertura de bambu foi curvada. Esta estrutura terá sido copiada nos templos cortados nas rochas, da Índia.

No período das invasões barbaras, a Península Ibérica albergou os visigodos e admitiu o seu domínio mas sujeitou-os à sua cultura, porquanto a estrutura nómada deste povo, não permitia que a tivessem. Foram um povo que se arrastou ao longo da Europa em convulsões sucessivas de guerras sangrentas, trazia consigo a tenda que o tapa da chuva e elementos de virilidade guerreira nos alforges do seu cavalo, feitos de metal, de pedras preciosas e de couro com uma mistura de simbologias que traduzem o seu contacto com outros povos, com outras religiões. no longo caminho de gerações, até chegar à Península.

Estela do período Visigótico com arco em ferradura encontrada em Mértola
Na segunda metade do séc.VI as tropas de Justiniano trouxeram para a península o prestígio da grandiosa arte bizantina e fizeram com que a poderosa civilização dos visigodos convertidos, atingisse o seu apogeu, na segunda metade do séc.VII.
Os visigodos contribuem com a sua arte decorativa, fruto do seu nomadismo. O arco de ferradura torna-se então uma constante desta arquitectura, como elemento construtivo já existente na Península.

Arco Emiral; Um legado Visigodo

Arco Emiral - Mesquita Catedral de Córdoba
 Quando Abd al Rahman I desembarca em Almuñecar (século VIII) e fundou o Emirado de Córdoba (756-929) os árabes já tinham começado a usar o arco em ferradura. O primeiro dos governantes Omíadas iria lançar um plano político que colocaria o Al Andalus no centro do próprio mundo islâmico, com a intenção lançou a primeira pedra  da Mesquita de Córdoba em 785. O emir construiu a mesquita em tempo surpreendente. Foi construída em apenas um ano, tal era certa a urgência para ganhar prestígio e consolidar o seu poder e, para isso forçou a contratação de artesãos locais que operavam perfeitamente o arco em ferradura Visigótico. Para isso recorreram a ruínas Romanas e Visigóticas nas redondezas, dai se compreende a semelhança entre os arcos Emirais e os Visigóticos.

O arco Califal - O triunfo Hispano-Muçulmano

Porta de San Esteban



O arco Hispano-Muçulmano atinge o seu apogeu no séc IX .  Embora tenha nascido no período Emiral a partir de um ponto de vista artístico pode-se falar sobre Arco Califado. A sua primeira manifestação aparece no arco superior da porta da fachada original da Mesquita  de Córdova na porta de San Estêban.

O apogeu do arco em ferradura; Lobulos e cruzes.

Mesquita de Cordova
                                 
Com o nascimento do Califado de Córdoba (929-1031) a arte muçulmana atingiu o seu apogeu. No magnífico palácio de Medina Azahara (936) assim como na Mesquita de Córdoba surgem as manifestações mais requintadas de arte Andaluza, incluindo arcos lobulados (originalmente da Mesopotâmia) e cruzando arcos com a utilização de estuques.


Fontes : Creswell, K.kC. Compêndio de Arquitectura Paleo Islâmica. Public. Universidad                                         de Sevilla, vol. l.

             Gomes-Moreno. M. Retazos. Ideas sobre Historia, Cultura y arte. Cons.Sup.                                  Invest.Cicntíficas .1970.

             Saldanha, F.; A.A. Silva. Arte Visigótica em Portugal. Tese Doutoramento.                                        Faculdade de Letras de Lisboa, 1962.

Fotos . José Alberto Ribeiro
            Obrigado João Ribeiro pela foto do arco de Faro

sábado, 11 de fevereiro de 2017

A decoração estampilhada da talha em período Almoada


O período Almoada representa já a fase final do domínio Islâmico no sudoeste peninsular e decorre entre os séculos XII e XIII. É uma época notável pois vive por um lado o período da "Reconquista Cristã", e por outro, o culto ideológico do poder do chefe e de Deus e isso pode se verificar na epigrafia das cerâmicas
É uma época de intolerância religiosa, as mesquitas foram destruídas ou convertidas em igrejas e muitos muçulmanos foram viver para fora de portas aparecendo assim as mourarias.


As Talhas

As talhas eram usadas principalmente como depósitos de agua ou como armazenamento de cereais e frutos secos. Eram compostas por um gargalo de boca larga e um bordo da aba grossa e um bojo globular que assenta numa base plana ou ligeiramente convexa.
A sua pasta mal cozida e porosa era branca ou avermelhada conforme a zona de onde era extraído o barro.


Nas talhas que ostentavam o tradicional estampilhado é de notar que apenas o colo e o ombro são revestidos e impermeabilizados pela tradicional pasta verde de oxido de cobre, pode se concluir então que eram utilizados para armazenar agua de beber. A parte inferior como não tinha qualquer tipo de revestimento ou cobertura vitrea  eram portanto naturalmente humedecidas conservando assim a agua sempre fresca. As talhas que não eram vidradas poderiam ser impermeabilizadas com pez ou gordura.


A decoração estampilhada era feita através de um molde ou matriz aplicado na peça com o barro ainda verde ( não cozido), deixando na peça motivos decorativos que aparecem tanto na horizontal como na vertical, segundo um registo de elementos sobrepostos. Os registos decorativos eram geralmente delimitados por frisos preenchidos por decoração rectilínea ou curvilínea incisa por  losangos impressos através de uma ferramenta rolante.
Em cada matriz da talha surgiam, alem do elemento principal, pequenos elementos diversos que preenchiam os espaços vazios num processo simétrico e equilibrado.



As talhas e os seus temas 

 
Tema Geométrico - Varias formas geométricas aparecem como elementos principais na cerâmica estampilhada, destacando-se as sequências entrelaçadas e concêntricas de losangos, estrelas de seis e oito pontas e algumas com formas circulares.

Tema Fitomorfico - Elementos muito estilizados e longe de se assemelharem a plantas naturais, Aparecem também elementos não identificados que surgem como temas centrais ou de preenchimento ale das tradicionais palmetas, flor de lotus ou rosetas.

Tema Epigrafico - A escrita árabe é um dos temas mais abundantes nas estampilhas da talha. Tanto em estilo cufico como em cursivo aparecem legendas bem epigrafadas de carácter religioso Al-Muk e outras de bênção e bem estar tais como al-yumme e baraka. Alem do carácter ornamental têm para um muçulmano um poder profilactico capaz de proteger não só o produto conservado como a a casa e seus donos.

Tema Zoomorfico - Existem vários exemplos com este tema e normalmente são representados através de aves, havendo alguns onde são apresentados também quadrúpedes aos pares ou mesmo leões.

Tema Antropomorfico - Normalmente o único elemento do corpo humano representado é a mão, este motivo é chamado por mão de Fátima ou Rhamsa (cinco). A religião   muçulmana na sua vertente popular converteu este símbolo e adaptou-o  á sua estrutura religiosa e social. A sua representação nas talhas demonstra mais uma vez a preocupação e o temor dos muçulmanos medievais em relação aos espíritos maléficos ou mau - olhado
sobre o alimento conservado.

Tema arquitectónico - É representado essencialmente por formas de arcos polilobulados
em ferradura, quase sempre delimitados ou preenchidos por motivos de carácter vegetal.

Adaptação de texto de Ricardo Tomás / Campo Arqueológico de Tavira
Fotos . Jose Alberto Ribeiro


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Torre albarrã do Castelo de Paderne devolvida à sua monumentalidade

A torre albarrã do Castelo de Paderne vai ser restaurada, numa intervenção que será coordenada pelo arquitecto Manuel López Vicente, especialista em conservação de taipa militar, e que custará no total cerca de 100 mil euros.




As obras neste monumento, classificado como imóvel de interesse público, são promovidas pela Direcção Regional de Cultura do Algarve e contam com o apoio, enquanto mecenas, da Fundação Millenium BCP, e ainda da Câmara Municipal de Albufeira.
O custo dos trabalhos é de 87 mil euros mais IVA, o que dá os cerca de 100 mil euros já referidos. Mas esta é apenas uma pequena parte da intervenção total que o Castelo de Paderne, com os seus 900 anos de história, precisaria, como salientou Alexandra Gonçalves, directora regional de Cultura, na assinatura dos protocolos entre as três entidades. (...)



http://www.sulinformacao.pt/2016/08/torre-albarra-do-castelo-de-paderne-devolvida-a-sua-monumentalidade-com-obras-de-100-mil-euros/