quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada



Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada
Mértola foi uma cidade de apogeu curto que atingiu notoriedade durante o período em que Beja mostrava já alguns sinais de declínio.
Foi durante a segunda metade do século XII que se assistiu a uma renovação da mesquita e à construção do bairro Islâmico.


O bairro Almoada
As casas do bairro estiveram durante séculos sepultadas antes das intervenções arqueológicas as resgatarem ao esquecimento, Foi um bairro com uma vida curta que nos seus finais deu especial importância à sua parte mais a norte.
Este bairro é uma obra notável de planeamento, com um traçado de ruas e a concepção de sistemas de saneamento que nada têm a ver com qualquer obra ao acaso.
A rede viária organizava-se seguindo um esquema definido entre linhas perpendiculares entre si são ainda hoje , depois das intervenções arqueológicas perfeitamente definíveis. A pavimentação das ruas em terra batida ligeiramente côncava seguia o mesmo modelo quer se tratasse de uma rua principal ou de um pequeno adarve. A área habitada era estruturada por duas ruas que delimitavam a alcáçova a norte e a oeste. segundo os responsáveis pelas escavações o conjunto urbano da alcáçova foi fruto de um empreendimento feito de raiz e que passou pelo delinear do seu traçado, a marcação das ruas e a construção de sistemas de saneamento mesmo antes da construção das casas.
Os sistemas de saneamento
Um dos detalhes menos visíveis mas mais interessantes dizem respeito ao sistema de saneamento que garantia qualidade de vida aos habitantes e que foi desde sempre alvo de particulares cuidados. Cada casa tinha a sua latrina perfeitamente autónoma no seio da habitação.
Os sistemas de aguas residuais foram construídos antes ainda da construção das casas e no caso da zona do criptoportico foram abertos caneiros que permitiam a sua infiltração.


As casas
As casas eram por norma encerradas em si viradas para um pátio central e além da porta da rua, raras eram as casas que tinham abertura para o exterior, preservando assim a vida privada. As divisões das casas apontam para uma relativa especialização de funções:- Um átrio de entrada, um pátio, o salão com a sua alcova, um espaço dedicado ao trabalho e quase sempre a presença de uma latrina.
Facto a registar, nas habitações de Mértola as cozinhas estavam organizadas em duas áreas com funções definidas: uma área de armazenamento e outra área de fogo, onde se confeccionavam os alimentos. As habitações deste bairro eram de um só piso, nada a nível arqueológico aponta para um piso superior. A área das casas variava em função do espaço e do estatuto do seu proprietário, podendo variar entre 42 m2 para a mais pequena e 160m2 para a de maior dimensão. Pode se afirmar que o bairro era composto por populações autóctones, as lareiras escavadas no chão parecem, pelo seu arcaísmo e carácter local, incompatíveis com qualquer tipo de população exterior ao território. As lareiras no chão das cozinhas era uma pratica corrente nas habitações das zonas de serra. Pode se afirmar que a população do bairro era composta por uma classe de artesãos e pequenos mercadores . O persistente reaproveitamento de peças de cerâmica aponta para uma população empobrecida que não poderia adquirir com regularidade novos utensílios, arqueologicamente isso é visível através das reparações com gatos (grampos de metal) identificáveis em muitas das peças mesmo nas menos dispendiosas peças em cerâmica comum encontrada nos níveis de abandono das casas do bairro Islâmico. As casas do bairro islâmico são mais pequenas do que outras escavadas em cidades do Al-Andalus do mesmo período o que deixa antever o tamanho reduzido do espaço disponível.
Técnicas construtivas
As técnicas são sensivelmente as mesmas em todas as habitações , constituindo a característica mais marcante o emprego de técnicas familiares a toda a bacia do Mediterrâneo ( taipa e adobe) e cujo uso se prolongou ate praticamente aos dias de hoje em particular nas regiões mais arcaicas do sul de Portugal ( Alentejo e Algarve).Vários elementos de ordem técnica são de destacar. As casas não tinham fundações, as suas paredes assentavam num pequeno alicerce, erguendo- se os muros ate uma altura de 50 cms em alvenaria no interior das habitações. Os adobes raros noutras regiões são encontrados em Mértola com relativa facilidade. No contexto Islâmico esse material estava associado a uma clara marca de austeridade ou ate mesmo de uma certa pobreza.
Os pavimentos das casas são um dos elementos que mais ajudam a caracterizar a condição socio-economica dos habitantes deste bairro, em nenhuma das habitações foram identificados revestimentos luxuosos em mármore ou azulejo , não se pondo a hipótese de terem sido arrancados uma vez que são visíveis , ainda que parcialmente, os pavimentos originais.
A cobertura das casas obedecia aos princípios arquitetónicos utilizados ate há poucos anos na região. Regra geral as paredes interiores das casas eram mais baixas que as exteriores, garantindo se assim a inclinação do telhado para dentro de forma a rentabilizar e garantir o armazenamento da agua das chuvas.
Excerto de texto de :
Cuadernos de Madinat Al - Zahra
Habitat e utensilios na Mertola Almoada
Susana Gomez / Ligia Rafael / Santiago Macias

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