segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Cerâmica vidrada policromada simples



Desde a época Califal que se encontra no Al-Andaluz cerâmica ornamentada com vidrado policromado em varias cores, embora a que mais se destacou foi sem duvida a combinação de branco,verde e roxo, sendo conhecida por " verde e manganês".
Esta foi a técnica mais usada no período Omiada e alguns autores chegam a designar de " cerâmica Califal".
As primeiras produções desta técnica têm a sua origem na China no século VII, tratavam-se de peças ornamentadas com cobre e manganês e e que escorriam livremente pela peça ( Watson 1984), dai passa ao Médio Oriente e estende-se pelo mundo Islâmico e são reproduzidos seguindo a cor e textura dos originais Chineses.
A sua técnica de fabrico consistia em aplicar uma demão em branco sobre a peça modelada e desidratada passando depois por uma primeira cozedura no forno, a seguir desenhavam-se então os motivos ornamentais com o oxido de manganês e cobre, a seguir toda a peça era revestida por uma cobertura à base de chumbo transparente e era então sujeita a uma segunda cozedura.
No reverso da peça era então aplicada uma cobertura à base de chumbo com uma pequena percentagem de óxidos coloridos que poderiam ser ferro ou mesmo cobre, por vezes era aplicada a mesma cobertura que na parte principal da peça. No caso concreto das cerâmicas encontradas em Mértola os motivos ornamentais encontram se sempre no interior ou no exterior das peças quando estas apresentam formas fechadas.
Estas técnicas podem ser ainda hoje vistas em oficinas de mestres de cerâmica  no Baixo Alentejo na zona de Reguengos de Monsaraz.

Adaptação de texto de Susana Martinez
Foto - José Alberto Ribeiro

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Castelo de Paderne A Ermida de N.ª Sra. da Assunção



No espaço interior do castelo encontra-se a ruína de uma construção romântica de pedra rudemente aparelhada e ligada com uma argamassa muito friável e de rebocos sobrepostos.
A Ermida da N.ª Sra. da Assunção é constituida pela capela mor e uma unica nave. A onomastica alude á elevação do corpo e da alma de Maria, mãe de Jesus, á gloria celestial após a morte. Por volta de mil quinhentos e seis, ano em que a igreja foi deslocalizada do interior do castelo recentemente despovoado para a actual refundação na actual aldeia de Paderne, que a Ermida de N.ª Sra. da Assunção ocupou o espaço que fora primitivamente da igreja de Nossa Senhora do Castelo.
Apesar de ausência de evidencias arqueológicas que o comprovem, o facto do orago da primitiva igreja ter como orago Santa Maria e atendendo que as mesquitas eram quase sempre sacralizadas em nome da virgem, leva a crer que a inicial sede paroquial de Paderne ocupou na sua criação a area do templo Islamico. O primeiro registo escrito da igreja data de 1263 no reinado de Afonso III associado á organização dos estatutos da Sé de Silves.
Em 1305 Dom Dinis entrega a igreja á ordem de Avis e possivelmente o edificio sofreu obras de remodelação ou foi mesmo erguida uma nova igreja para marcar a presença da ordem.
Ainda hoje pode ser observado no topo norte da muralha de taipa no enquadramento da actual igreja um telhado de duas aguas, tendo sido observado na da ultima intervenção arqueológica os alicerces das paredes sobre os quais assentaria o telhado.




A fachada principal da ermida tem de largura 5,40m e é ornamentada com um óculo de massa e as paredes laterais têm de comprimento 11 metros apresentando contrafortes adossados posteriormente á estrutura inicial da nave, tendo 3 a norte e dois a sul.




A capela mor exibe ainda o arco triunfal e nas paredes laterais os arranques da cúpula que a cobriu bem como um troço em alvenaria do altar mor que teria 3,60m de comprimento por 3,80 de largura, a actual construção parece ter sido realizada em duas fases, a inicial que parece corresponder á capela mor de secção quadrangular encimada por uma cúpula á semelhança dos tradicionais morabitos do sul de Portugal, posteriormente terá sido acrescentada a nave em cujas paredes interiores registam se os vestígios de dois altares laterais entaipados facilmente identificados pelas aduelas dos arcos e por um aparelho construtivo diferente.
Possivelmente depois do grande terramoto de 1755 as obras de reconstrução adaptaram o altar lateral da parede sul em porta de entrada no novo anexo tendo a nova construção aproveitado um dos contrafortes da igreja como parte de uma das suas paredes

Texto - Dra. Natércia Magalhães
Fotos José Alberto Ribeiro

segunda-feira, 20 de julho de 2015

CASTILLO DE SILVES, ALCAZABA DE SILVES, PORTUGAL



Elisita e Daniel desta vez visitaram o castelo de Silves e o resultado é mais uma vez um belo relato sobre a fortificação, o palácio e o hammam (banhos) de características Almoadas. Muito obrigado pela vossa visita e pela divulgação do Gharb .
O Algarve agradece.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Museu de Arqueologia de Silves



Mais um excelente relato de Elisita e Daniel sobre o Al- Andaluz, desta feita sobre o museu de arqueologia da cidade de Silves, a próxima paragem é Mértola .
Foi um prazer conhece-los, muito obrigado por tudo.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Caldeira de alambique (الأنبيق)

Mértola 
Caldeira de alambique (الأنبيق)
Núcleo do torreão do castelo 
Sec XI







Recipiente cilíndrico e fechado com formato hemisférico e revestido com pasta vítrea de grande qualidade, devido à sua forma estaria equipado com um tripé afim de o suster na posição vertical.
Era nesta caldeira que se introduzia o liquido que, depois de entrar em ebulição separava os elementos voláteis que se concentravam na campânula.
A sua forma na base era cilíndrica pois assim oferecia uma maior resistência ao calor necessário para que os líquidos destilassem.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Alcatruzes em cerâmica (al-kadus)

Museu de Arqueologia de Silves
Alcatruzes em cerâmica (al-kadus)
Arrabalde oriental de Silves
Sec - XII





Não existe duvida quanto á utilização do alcatruz, ainda nos dias de hoje pode ser visto no Algarve nas zonas mais interiores onde predomina a actividade agrícola, embora os de hoje sejam de madeira ou mesmo de metal.
Este tipo de cerâmica foi também adaptado pelas comunidades piscatórias na captura de polvos. Com o tempo de utilização ficam cobertos de moluscos sendo assim impossível atribuir-lhes esse uso em contexto islâmico uma vez que nenhuma das peças encontradas apresenta sinais de utilização na pesca do polvo.
Segundo alguns autores estas peças seriam também utilizadas como clepsidras ou relógios de agua para medir o tempo de rega.
O alcatruz era furado na base e enchia se de agua medindo se assim o tempo que demorava a vazar como unidade de medida temporal ( Zozaya 1981).
Os furos ou orifícios na base do alcatruz poderiam ter uma outra utilização que era facilitar a saída da agua quando ja ia no sentido descendente, permitindo assim a entrada de ar que substituía a agua evitando assim criar uma bolsa de ar no interior da peça.
No Al-Andalus são conhecidos basicamente dois tipos de alcatruzes, os de corpo cilíndrico com base plana e os de base conica como os da foto.

Adaptação de texto de Susana Martinez
Foto - José Alberto Ribeiro

quarta-feira, 11 de março de 2015

Brinquedos muçulmanos de cerâmica no sul de Portugal


No território do Al-Andalus durante escavações arqueológicas ou por achados fortuitos têm vindo a ser descobertos alguns brinquedos de cerâmica.Apresentam-se na forma de pequenas figuras zoomorficas assim como em pequenas peças de cerâmica e nalguns casos antropomórficas, estas peças são consideradas em contexto Islâmico como brinquedos. Algumas destas peças em cerâmica apresentavam sinais de utilização ao lume sendo assim provável que algumas crianças iniciassem a sua aprendizagem na culinária acompanhadas das mães ou de cozinheiras.


E assim provável que as pequenas bonecas e as miniaturas de loiça de cozinha seriam próprios de crianças do sexo feminino enquanto os cavalinhos seriam parte integrante do imaginário do sexo masculino ligado ás façanhas cinegéticas e guerreiras.
Integravam ainda as actividades lúdicas. infantis e juvenis, algumas marcas de jogo assim como grafitos e algumas series de covinhas que serviriam de tabuleiro para esse tipo de entretenimento que também era praticado por adultos.





Estes brinquedos apesar da sua função lúdica tinham também a sua parte didáctica uma vez que alem da sua presença no quotidiano eles eram produzidos e oferecidos ás crianças Islâmicas em manifestações sócio-religiosas.

Adaptação de texto de Rosa varela Gomes
Fotos : José Alberto Ribeiro

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada



Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada
Mértola foi uma cidade de apogeu curto que atingiu notoriedade durante o período em que Beja mostrava já alguns sinais de declínio.
Foi durante a segunda metade do século XII que se assistiu a uma renovação da mesquita e à construção do bairro Islâmico.


O bairro Almoada
As casas do bairro estiveram durante séculos sepultadas antes das intervenções arqueológicas as resgatarem ao esquecimento, Foi um bairro com uma vida curta que nos seus finais deu especial importância à sua parte mais a norte.
Este bairro é uma obra notável de planeamento, com um traçado de ruas e a concepção de sistemas de saneamento que nada têm a ver com qualquer obra ao acaso.
A rede viária organizava-se seguindo um esquema definido entre linhas perpendiculares entre si são ainda hoje , depois das intervenções arqueológicas perfeitamente definíveis. A pavimentação das ruas em terra batida ligeiramente côncava seguia o mesmo modelo quer se tratasse de uma rua principal ou de um pequeno adarve. A área habitada era estruturada por duas ruas que delimitavam a alcáçova a norte e a oeste. segundo os responsáveis pelas escavações o conjunto urbano da alcáçova foi fruto de um empreendimento feito de raiz e que passou pelo delinear do seu traçado, a marcação das ruas e a construção de sistemas de saneamento mesmo antes da construção das casas.
Os sistemas de saneamento
Um dos detalhes menos visíveis mas mais interessantes dizem respeito ao sistema de saneamento que garantia qualidade de vida aos habitantes e que foi desde sempre alvo de particulares cuidados. Cada casa tinha a sua latrina perfeitamente autónoma no seio da habitação.
Os sistemas de aguas residuais foram construídos antes ainda da construção das casas e no caso da zona do criptoportico foram abertos caneiros que permitiam a sua infiltração.


As casas
As casas eram por norma encerradas em si viradas para um pátio central e além da porta da rua, raras eram as casas que tinham abertura para o exterior, preservando assim a vida privada. As divisões das casas apontam para uma relativa especialização de funções:- Um átrio de entrada, um pátio, o salão com a sua alcova, um espaço dedicado ao trabalho e quase sempre a presença de uma latrina.
Facto a registar, nas habitações de Mértola as cozinhas estavam organizadas em duas áreas com funções definidas: uma área de armazenamento e outra área de fogo, onde se confeccionavam os alimentos. As habitações deste bairro eram de um só piso, nada a nível arqueológico aponta para um piso superior. A área das casas variava em função do espaço e do estatuto do seu proprietário, podendo variar entre 42 m2 para a mais pequena e 160m2 para a de maior dimensão. Pode se afirmar que o bairro era composto por populações autóctones, as lareiras escavadas no chão parecem, pelo seu arcaísmo e carácter local, incompatíveis com qualquer tipo de população exterior ao território. As lareiras no chão das cozinhas era uma pratica corrente nas habitações das zonas de serra. Pode se afirmar que a população do bairro era composta por uma classe de artesãos e pequenos mercadores . O persistente reaproveitamento de peças de cerâmica aponta para uma população empobrecida que não poderia adquirir com regularidade novos utensílios, arqueologicamente isso é visível através das reparações com gatos (grampos de metal) identificáveis em muitas das peças mesmo nas menos dispendiosas peças em cerâmica comum encontrada nos níveis de abandono das casas do bairro Islâmico. As casas do bairro islâmico são mais pequenas do que outras escavadas em cidades do Al-Andalus do mesmo período o que deixa antever o tamanho reduzido do espaço disponível.
Técnicas construtivas
As técnicas são sensivelmente as mesmas em todas as habitações , constituindo a característica mais marcante o emprego de técnicas familiares a toda a bacia do Mediterrâneo ( taipa e adobe) e cujo uso se prolongou ate praticamente aos dias de hoje em particular nas regiões mais arcaicas do sul de Portugal ( Alentejo e Algarve).Vários elementos de ordem técnica são de destacar. As casas não tinham fundações, as suas paredes assentavam num pequeno alicerce, erguendo- se os muros ate uma altura de 50 cms em alvenaria no interior das habitações. Os adobes raros noutras regiões são encontrados em Mértola com relativa facilidade. No contexto Islâmico esse material estava associado a uma clara marca de austeridade ou ate mesmo de uma certa pobreza.
Os pavimentos das casas são um dos elementos que mais ajudam a caracterizar a condição socio-economica dos habitantes deste bairro, em nenhuma das habitações foram identificados revestimentos luxuosos em mármore ou azulejo , não se pondo a hipótese de terem sido arrancados uma vez que são visíveis , ainda que parcialmente, os pavimentos originais.
A cobertura das casas obedecia aos princípios arquitetónicos utilizados ate há poucos anos na região. Regra geral as paredes interiores das casas eram mais baixas que as exteriores, garantindo se assim a inclinação do telhado para dentro de forma a rentabilizar e garantir o armazenamento da agua das chuvas.
Excerto de texto de :
Cuadernos de Madinat Al - Zahra
Habitat e utensilios na Mertola Almoada
Susana Gomez / Ligia Rafael / Santiago Macias