segunda-feira, 29 de junho de 2015

Caldeira de alambique (الأنبيق)

Mértola 
Caldeira de alambique (الأنبيق)
Núcleo do torreão do castelo 
Sec XI







Recipiente cilíndrico e fechado com formato hemisférico e revestido com pasta vítrea de grande qualidade, devido à sua forma estaria equipado com um tripé afim de o suster na posição vertical.
Era nesta caldeira que se introduzia o liquido que, depois de entrar em ebulição separava os elementos voláteis que se concentravam na campânula.
A sua forma na base era cilíndrica pois assim oferecia uma maior resistência ao calor necessário para que os líquidos destilassem.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Alcatruzes em cerâmica (al-kadus)

Museu de Arqueologia de Silves
Alcatruzes em cerâmica (al-kadus)
Arrabalde oriental de Silves
Sec - XII





Não existe duvida quanto á utilização do alcatruz, ainda nos dias de hoje pode ser visto no Algarve nas zonas mais interiores onde predomina a actividade agrícola, embora os de hoje sejam de madeira ou mesmo de metal.
Este tipo de cerâmica foi também adaptado pelas comunidades piscatórias na captura de polvos. Com o tempo de utilização ficam cobertos de moluscos sendo assim impossível atribuir-lhes esse uso em contexto islâmico uma vez que nenhuma das peças encontradas apresenta sinais de utilização na pesca do polvo.
Segundo alguns autores estas peças seriam também utilizadas como clepsidras ou relógios de agua para medir o tempo de rega.
O alcatruz era furado na base e enchia se de agua medindo se assim o tempo que demorava a vazar como unidade de medida temporal ( Zozaya 1981).
Os furos ou orifícios na base do alcatruz poderiam ter uma outra utilização que era facilitar a saída da agua quando ja ia no sentido descendente, permitindo assim a entrada de ar que substituía a agua evitando assim criar uma bolsa de ar no interior da peça.
No Al-Andalus são conhecidos basicamente dois tipos de alcatruzes, os de corpo cilíndrico com base plana e os de base conica como os da foto.

Adaptação de texto de Susana Martinez
Foto - José Alberto Ribeiro

quarta-feira, 11 de março de 2015

Brinquedos muçulmanos de cerâmica no sul de Portugal


No território do Al-Andalus durante escavações arqueológicas ou por achados fortuitos têm vindo a ser descobertos alguns brinquedos de cerâmica.Apresentam-se na forma de pequenas figuras zoomorficas assim como em pequenas peças de cerâmica e nalguns casos antropomórficas, estas peças são consideradas em contexto Islâmico como brinquedos. Algumas destas peças em cerâmica apresentavam sinais de utilização ao lume sendo assim provável que algumas crianças iniciassem a sua aprendizagem na culinária acompanhadas das mães ou de cozinheiras.


E assim provável que as pequenas bonecas e as miniaturas de loiça de cozinha seriam próprios de crianças do sexo feminino enquanto os cavalinhos seriam parte integrante do imaginário do sexo masculino ligado ás façanhas cinegéticas e guerreiras.
Integravam ainda as actividades lúdicas. infantis e juvenis, algumas marcas de jogo assim como grafitos e algumas series de covinhas que serviriam de tabuleiro para esse tipo de entretenimento que também era praticado por adultos.





Estes brinquedos apesar da sua função lúdica tinham também a sua parte didáctica uma vez que alem da sua presença no quotidiano eles eram produzidos e oferecidos ás crianças Islâmicas em manifestações sócio-religiosas.

Adaptação de texto de Rosa varela Gomes
Fotos : José Alberto Ribeiro

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada



Alcáçova de Mértola - O bairro Almoada
Mértola foi uma cidade de apogeu curto que atingiu notoriedade durante o período em que Beja mostrava já alguns sinais de declínio.
Foi durante a segunda metade do século XII que se assistiu a uma renovação da mesquita e à construção do bairro Islâmico.


O bairro Almoada
As casas do bairro estiveram durante séculos sepultadas antes das intervenções arqueológicas as resgatarem ao esquecimento, Foi um bairro com uma vida curta que nos seus finais deu especial importância à sua parte mais a norte.
Este bairro é uma obra notável de planeamento, com um traçado de ruas e a concepção de sistemas de saneamento que nada têm a ver com qualquer obra ao acaso.
A rede viária organizava-se seguindo um esquema definido entre linhas perpendiculares entre si são ainda hoje , depois das intervenções arqueológicas perfeitamente definíveis. A pavimentação das ruas em terra batida ligeiramente côncava seguia o mesmo modelo quer se tratasse de uma rua principal ou de um pequeno adarve. A área habitada era estruturada por duas ruas que delimitavam a alcáçova a norte e a oeste. segundo os responsáveis pelas escavações o conjunto urbano da alcáçova foi fruto de um empreendimento feito de raiz e que passou pelo delinear do seu traçado, a marcação das ruas e a construção de sistemas de saneamento mesmo antes da construção das casas.
Os sistemas de saneamento
Um dos detalhes menos visíveis mas mais interessantes dizem respeito ao sistema de saneamento que garantia qualidade de vida aos habitantes e que foi desde sempre alvo de particulares cuidados. Cada casa tinha a sua latrina perfeitamente autónoma no seio da habitação.
Os sistemas de aguas residuais foram construídos antes ainda da construção das casas e no caso da zona do criptoportico foram abertos caneiros que permitiam a sua infiltração.


As casas
As casas eram por norma encerradas em si viradas para um pátio central e além da porta da rua, raras eram as casas que tinham abertura para o exterior, preservando assim a vida privada. As divisões das casas apontam para uma relativa especialização de funções:- Um átrio de entrada, um pátio, o salão com a sua alcova, um espaço dedicado ao trabalho e quase sempre a presença de uma latrina.
Facto a registar, nas habitações de Mértola as cozinhas estavam organizadas em duas áreas com funções definidas: uma área de armazenamento e outra área de fogo, onde se confeccionavam os alimentos. As habitações deste bairro eram de um só piso, nada a nível arqueológico aponta para um piso superior. A área das casas variava em função do espaço e do estatuto do seu proprietário, podendo variar entre 42 m2 para a mais pequena e 160m2 para a de maior dimensão. Pode se afirmar que o bairro era composto por populações autóctones, as lareiras escavadas no chão parecem, pelo seu arcaísmo e carácter local, incompatíveis com qualquer tipo de população exterior ao território. As lareiras no chão das cozinhas era uma pratica corrente nas habitações das zonas de serra. Pode se afirmar que a população do bairro era composta por uma classe de artesãos e pequenos mercadores . O persistente reaproveitamento de peças de cerâmica aponta para uma população empobrecida que não poderia adquirir com regularidade novos utensílios, arqueologicamente isso é visível através das reparações com gatos (grampos de metal) identificáveis em muitas das peças mesmo nas menos dispendiosas peças em cerâmica comum encontrada nos níveis de abandono das casas do bairro Islâmico. As casas do bairro islâmico são mais pequenas do que outras escavadas em cidades do Al-Andalus do mesmo período o que deixa antever o tamanho reduzido do espaço disponível.
Técnicas construtivas
As técnicas são sensivelmente as mesmas em todas as habitações , constituindo a característica mais marcante o emprego de técnicas familiares a toda a bacia do Mediterrâneo ( taipa e adobe) e cujo uso se prolongou ate praticamente aos dias de hoje em particular nas regiões mais arcaicas do sul de Portugal ( Alentejo e Algarve).Vários elementos de ordem técnica são de destacar. As casas não tinham fundações, as suas paredes assentavam num pequeno alicerce, erguendo- se os muros ate uma altura de 50 cms em alvenaria no interior das habitações. Os adobes raros noutras regiões são encontrados em Mértola com relativa facilidade. No contexto Islâmico esse material estava associado a uma clara marca de austeridade ou ate mesmo de uma certa pobreza.
Os pavimentos das casas são um dos elementos que mais ajudam a caracterizar a condição socio-economica dos habitantes deste bairro, em nenhuma das habitações foram identificados revestimentos luxuosos em mármore ou azulejo , não se pondo a hipótese de terem sido arrancados uma vez que são visíveis , ainda que parcialmente, os pavimentos originais.
A cobertura das casas obedecia aos princípios arquitetónicos utilizados ate há poucos anos na região. Regra geral as paredes interiores das casas eram mais baixas que as exteriores, garantindo se assim a inclinação do telhado para dentro de forma a rentabilizar e garantir o armazenamento da agua das chuvas.
Excerto de texto de :
Cuadernos de Madinat Al - Zahra
Habitat e utensilios na Mertola Almoada
Susana Gomez / Ligia Rafael / Santiago Macias

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Povoado Islâmico da Ponta do Castelo


Aljezur / Carrapateira

Seculo XII/XIII
Segundo Rosa Varela Gomes, arqueóloga responsável pela intervenção, este povoado situado num cabo que termina em arriba sobre o oceano seria provavelmente sazonal dedicado à exploração dos recursos marinhos, juntamente com a agricultura, conduzindo deste modo à produção agro-marítima, frequente na costa algarvia.




Foram identificadas restos de catorze estruturas habitacionais constituídas por uma única divisão, com planta rectangular, edificadas em taipa sobre enrocamento de pedra.
Algumas destas estruturas conservavam restos de combustão e cerâmicas partidas, assim como anzóis, pesos de rede e restos de fauna marítima e terrestre.
A pesca e o marisco constituíam não só a principal fonte alimentar dos residentes neste povoado mas o peixe, depois de salgado e seco, poderia entrar nos circuitos comerciais, servindo como moeda de troca com diferentes produtos de outras regiões do interior, nomeadamente cereais.
Foi também levantada a hipótese de este povoado ser um observatório do mar, talvez tendo em vista a baleação.





O osso de baleia encontrado, poderia ter pertencido a animal ali caçado, pois aquele mamífero marinho, hoje desaparecido do mar do Algarve, era abundante no Garb al-Andalus.
O povoado da Ponta do Castelo é o primeiro assentamento de pescadores do período muçulmano a ser investigado em Portugal.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Bocal de cisterna islâmico de Silves


Peça exposta no Museu de Arqueologia de Silves

Arenito vermelho ( Grês de Silves)




Uma leitura possível feita por Mário Varela Gomes e Rosa Varela Gomes

No ano de 1975 e após a demolição de uma moradia na zona mais alta de Silves foram encontrados alguns fragmentos desta peça esculpida em arenito vermelho( pedra de Silves).
Com a colaboração do escultor Carlos Soares os fragmentos foram colados e restaurados estando a peça actualmente exposta no Museu Municipal de Arqueologia de Silves .
Este bocal pertencia a uma cisterna de construção subterrânea de planta quadrangular medindo cerca de 1,70m de largura por 2.20m de alto, sendo a cobertura em forma de volta perfeita ou abobada de canhão.
A estrutura da cisterna era feita de argamassa de cal e areia tendo sido escavada no solo e no substrato rochoso.
Foram identificados restos de uma outra cisterna do período Almoada que se encontrava sob um pátio com jardim e passeador, sobreposto pela necrópole cristã junta á Sé que data da segunda metade do século XIII.
O bocal foi estudado pelos arqueólogos Mário Varela Gomes e Rosa varela Gomes apresentando uma forma prismática com as medida de 0.70 de diâmetro e 0.75 de largura talhada em Grés de Silves de cor vermelha escura com manchas arroxeadas e de cor ocre .
Esta peça apresenta oito faces e os motivos decorativos foram gravados em relevo.



Para ler na integra : http://www.academia.edu/1551321/Bocal_de_Poco_Islamico_de_Silves_-_Uma_leitura_possivel

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Castelo de Aljezur



O castelo de Aljezur apresenta uma planta poligonal, na cota dos sessenta e cinco metros, adaptado ao topo da colina onde foi construído, as suas muralhas atingem nalgumas partes um metro e meio de espessura e com alturas variáveis entre os três e os cinco metros. Tem uma única entrada virada a nascente defendida por uma torre maciça de planta semi - circular localizada a nordeste, no extremo oposto e orientada a sul encontra se uma outra torre igualmente maciça mas de secção rectangular.




No espaço interno encontra se um aljibe (cisterna), de planta rectangular, possivelmente de origem Almoada, com abobada de berço e um vão em arco, esta cisterna servia de reservatório de aguas pluviais e era uma estrutura vital para a sobrevivência da população no quotidiano assim como em caso de ataque prolongado. São também visíveis um conjunto de estruturas de planta rectangular ou trapezoidal dispostas perpendicularmente ao longo da muralha que correspondem a um aquartelamento tardo medieval abandonado no século dezasseis. Através de sondagens realizadas sobre estas estruturas foi possível localizar pré existências muçulmanas que correspondiam a espaços habitacionais, é ainda possível observar um importante conjunto de silos que terão surgido da necessidade de conservar os alimentos.




 As escavações arqueológicas realizadas no interior das muralhas do castelo de Aljezur nos anos noventa do século XX forneceram as primeiras informações  acerca da presença humana no cerro onde se ergue o castelo. Essas escavações deram a conhecer a utilização mais remota  que corresponde a um povoamento dos finais da Idade do Bronze datado de 3000 anos atestado por materiais cerâmicos conservados em nível pouco espesso e descontinuo assente sobre um substrato rochoso. Em 2004 sondagens arqueológicas deram a conhecer no lado poente um muro de pedra associado a materiais da Idade do Ferro cuja construção aparenta ser anterior á muralha Medieval permitindo assim colocar a hipótese de que a continuidade da ocupação no cerro do Castelo poder recuar ao período Proto-Histórico.




Do período Romano Republicano o espolio arqueológico é composto de produtos locais alem de produtos importados, provavelmente de origem Itálica, tais como cerâmicas finas de mesa de engobe negro e lustroso do tipo campaniense e de ânforas vinárias  do século segundo a primeiro antes de Cristo.
A presença humana retomou ao topo do cerro do castelo já no período Islâmico cronologicamente datado do século oitavo á primeira metade do século treze .
Do período Islâmico foram registados alicerces de alvenaria que sustentavam muros de taipa adjacentes a habitações que eram por vezes lajeadas, foram ainda descobertos silos escavados no solo que serviam de armazenamento de alimentos. A cisterna do castelo está também associada a este período.




È de tradição local que o castelo foi construído pelos árabes, tradição essa que é reforçada pelo topónimo de origem árabe Al-jazira, a ilha. Este topónimo oferece a informação de que o cerro do castelo já esteve rodeado de agua e que através da ribeira de Aljezur haveria acesso directo ao mar pelo menos até ao século dezesseis.
Durante o período Islâmico a área habitada do cerro do castelo estendia se a nascente e a sul da colina assim como em pequenas zonas dispersas de onde provem um espolio composto por cerâmicas Omiadas e artefactos em metal que estão expostos no Museu de Lagos.
Esta fortificação nos periodos Almoadas e terceiras taifas integrava um sistema defensivo da cidade de Silves, essa linha defensiva integrava os actuais concelhos de Aljezur, Lagoa. Albufeira e o sul do litoral Alentejano.

Adaptação de texto de Dra. Natércia Magalhães
Fotos - José Alberto Ribeiro


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Albufeira - Placa Apotropaica




Símbolo do Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira, foi cronologicamente atribuído ao período Islâmico (século X ) pelo arqueólogo Mário Varela Gomes. Foi descoberta pelo Padre Semedo de Azevedo no local da Porta da Alcaçova ou da Praça. Esta placa está decorada com dois motivos de plantas, colocados a par, que poderão representar pétalas ou bolbos de lotus.

As placas apotropaicas são elementos arquitectónicos pouco comuns no mundo Islâmico peninsular, sendo também conhecidas por placas profiláticas. Estas placas oferecem textos ou iconografias apresentadas de formas variáveis onde se destacam símbolos recorrentes tidos como possuidores de propriedades capazes de afastarem o mal. 


Fonte - Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira