sábado, 11 de dezembro de 2010

A estrutura Económico-Social e Política


Em meados do século XI, mais de metade de Portugal territorial era ainda muçulmano, ocupando uma área de 53 500 km2. Gradualmente a ofensiva cristã foi minimizando esse espaço: um século passado, quando o Tejo ao estabelecer-se como fronteira, restavam ainda aos Mouros uns 37 300 km2.
No ano de 1230, o território pertencente ao Islão ficou reduzido a 15 300 km2. Por último, o que ficou aos Muçulmanos entre 1238 e a conquista final de 1249 eram somente 2500 Km2.
A importância demográfica e prosperidade económica do Al-Gharb não se devem a uma distribuição populacional equilibrada, mas sim à existência de algumas grandes cidades e aldeias, desconhecidas do Norte.
Não só aí residiam os abastados proprietários de campos de cultivo, como também os trabalhadores que os tornavam produtivos. Há também registos de mercadores, artífices, marinheiros e pescadores. O Sul mostrava-se urbano em carácter, embora o seu reduzido povoamento humano fosse exigido nessas cidades.
O povoamento variava de região para região e a Norte de Al-usbuna, o país mostrava-se bem cultivado e povoado.
A vida económica baseava-se evidentemente na agricultura. O Sul produzia cereais em abundância, sobretudo trigo, sendo famosa a região entre Al-usbuna e Santarin pela sua alta produtividade, considerada como um verdadeiro celeiro. A fruta e o azeite seguiam-se, detendo também o primeiro lugar.
Extensos campos de olivais cobriam o país, por vezes misturados com trigo. O actual Algarve era já um dos grandes produtores de figo e amêndoa, objecto de larga exportação. Em redor da cada cidade, pomares acompanhados de férteis hortas alimentavam a população local, permitindo também algumas exportações. É de referir também a difusão de uma variedade botânica de trigo (trigo mourisco), arroz, laranja e o açafrão.
Foram vários os legados Muçulmanos relativamente às técnicas e melhoramentos agrícolas estando na base das infra-estruturas rurais de certas áreas do sul. Entre eles destacam-se aperfeiçoamentos de dois engenhos relevantes, a naura (nora) e a sanzya (azenha).
Na economia, parte importante era desempenhada pelo peixe e pelo sal. Assim toda a costa marítima do Gharb era solarenga e propícia às actividades piscatórias. Também ao longo dos estuários dos rios Tejo e Sado eram frequentes as salinas. Pouco se sabe da criação de gado, mas produzia-se bastante leite, manteiga e queijo, provavelmente de ovelha e de cabra. A abundância de bolota convidaria à criação de porcos apenas entre os camponeses cristãos, já que a religião Islâmica se mostrava contrária à existência de tais animais. Pesca, sal e localização geográfica foram fundamentais para o surto de navegação e de comércio marítimo. Escasseiam também as fontes sobre comunicações do comércio. A rede vial romana foi provavelmente mantida e reparada, se não alargada. Planícies e alguns rios (embora a navegabilidade fosse limitada pelas condições do solo e do clima) permitiam contactos e transportes mais fáceis do que no Norte. A circulação da moeda em ouro, prata e cobre era abundante. A tradição transmitida a tempos posteriores sugere um elevado número de mão-de-obra especializada, de acordo com necessidades domésticas e quotidianas, tais como alfaiates, carpinteiros, sapateiros, oleiros, pedreiros, celeiros e outros semelhantes. Alguns estavam organizados em corporações rudimentares e estabelecidos em ruas ou zonas bem determinadas. Fabricava-se possivelmente papel, mas é provável que houvesse sobretudo importações do oriente de Al-Andalus.
A estrutura social de al-Garb al-Andalus nos séculos XII e XIII não se mostrava muito diferente da do norte cristão. Uma classe de proprietários rurais detinha a maior parte do solo e controlava a maior parte do poder.
Contrariamente aos portugueses da região norte, esses latifundiários habitavam geralmente nas cidades ou em grandes aldeias, onde recebiam as rendas das suas herdades que visitavam por curtos períodos.
O tipo de propriedade correspondente no sul à villa chamava-se dai'a, donde o português tirou a palavra aldeia. O processo de conversão de uma dai'a em freguesia, em tempos posteriores, foi semelhante àquele que transformou a villa em freguesia também. O seu núcleo, onde se localizava a casa senhorial, rodeada pelas habitações dos clientes e por outras dependências, tornou-se, em tempos cristãos, a aldeia propriamente dita, isto é, uma «aldeia», no moderno sentido da palavra. Em cada ‘dai'a a exploração rural pertencia a camponeses livres (muzãri) que estavam ligados ao proprietário pelo pagamento de uma renda, a qual podia ascender a metade da produção. Por sua vez, o proprietário devia ao Estado (no Islão, não separado da Igreja) uma dízima, relacionada com a obrigação religiosa do pagamento do zakãt (esmola). Em teoria, todas as terras pertenciam ao Estado que, no tempo da conquista, as concedera perpetuamente a um guerreiro e a seus herdeiros.
Umas quantas herdades, ou antes, certos pequenos minifúndios, foram deixados nas mãos de agricultores cristãos. Tinham de pagar um tributo chamado harã, muito superior à dizima. Mais tarde, quando boa parte dos Cristãos se foi convertendo ao islamismo e passando a muwalladun (daí a palavra portuguesa malados), essa contribuição não foi reduzida. Ficaram assim os malados em situação fiscal pior que a dos velhos muçulmanos, o que acarretou perturbações sociais e divisões nítidas entre os dois tipos de crentes, À medida que a autoridade central se ia tornando mais fraca, a área das diya aumentava e as terras de haraj diminuíam, visto que muitos pequenos proprietários preferiam alienar o seu direito à propriedade plena e encomendar-se antes à protecção e autoridade de ricos proprietários de diya, o que lhes reduzia o peso dos impostos e lhes aumentava a segurança.
Teoricamente, não existia, no Islão, igreja separada. Para fins práticos, porém, o Estado consignava às mesquitas as rendas de grande percentagem de propriedade, tanto rural quanto urbana, assim como a sua administração real.
Nestes termos, podiam considerar-se as mesquitas como grandes proprietários também.
Apesar de todas as cedências, o Estado manteve-se extremamente rico e poderoso nos países muçulmanos. Através do califa e de seus representantes, possuía terras cultivadas, propriedade urbana, meios de produção (tais como moinhos, fornos e lagares) e a maior parte dos baldios. Este papel do Estado não pode ser subestimado, se quisermos compreender as condições do poder real quando os monarcas cristãos se apoderaram de tudo aquilo que pertencia ao estado muçulmano. O desmembramento do califado, pela segunda vez em cem anos, e o consequente surto de unidades locais de administração política implicaram tendências autónomas e governos hereditários regulares. Em muitos casos, os impérios Almorávida e Almohada mantiveram e até reforçaram a hereditariedade como meio poderoso de impedir a anarquia e de resistir a ataques externos. Grandes senhores locais receberam o governo das áreas onde residiam e conseguiram mantê-lo dentro da sua família por mais de uma geração. Se não se desenvolveram pequenas dinastias locais, foi apenas por falta de tempo. Em Santarin e al-Qasr, por exemplo, as tendências militares passavam de geração em geração até à conquista cristã. São impressionantes as genealogias muçulmanas, pois deparamo-nos com os parentescos entre os diversos funcionários superiores locais no Al-Gharb al-Andalus. Uma pequena oligarquia detinha aparentemente o poder, limitando-se a trocar entre si os principais cargos.
O extremo sul constituía outra kura com capital em Shilb. Como todas estas cidades, e muitas outras, tinham governadores militares com o mesmo nome (alqa'id, em português alcaide), torna-se difícil determinar a hierarquia relativa de umas para com as outras.
Abaixo da kura, havia ainda a pequena unidade rural chamada qarya (plural quran) assim como a cidade (qasaba ou madina). Estas palavras deram, em português, (al)caria, (al)cáçova e (al)medina.
Para fins judiciários, existia coincidência aproximada entre as suas unidades e as Kuwar. Cada cidade e muitas aldeias grandes tinham o seu qãdÍ (de onde vem alcalde) ou juiz próprio. Nas comunidades mais pequenas, este funcionário era substituído por um hãkim (alfaqui em português). Outro funcionário importante, que praticamente controlava a vida económica de cada cidade, era o muhtasib (em português, almotacé), que tabelava os preços, aferia os pesos e medidas, estabelecia a importância das multas, servia como árbitro em disputas económicas, superintendente da cidade em mantimentos e em água, etc. Em teoria, todos estes funcionários eram nomeados, mas a prática comum tornou-os ou hereditários ou escolhidos entre um pequeno grupo de notáveis locais.
São escassas as noções quanto ao avanço cultural de al-Garb Cultura al-Andalus durante os séculos xii e xiii. Podemos conhecer alguns poetas e escritores que aí nasceram, mas ignoramos as condições gerais e os meios de toda a actividade cultural. Cultivava-se a poesia e diz-nos al-Qazwini (falecido em 1283) que, em Shilb, até os cavadores se mostravam capazes de improvisar estrofes. Baladas líricas e canções conhecidas por muwâsah e zajal foram por ventura introduzidas do centro e do oriente do Al-Andalus onde estavam em voga a partir do século XI. A rápida propagação do sufismo e o turbilhão religioso dos meados do século XII poderiam explicar-se simplesmente por razões sociais e económicas. Todavia, não deixam de sugerir certa cultura religiosa e filosófica de raiz urbana. Existiriam por certo escolas, embora nada saibamos, por exemplo, do número e da localização de madrasahs («universidades» ou escolas secundárias muçulmanas). Seja como for, toda essa cultura era árabe, dependendo da fé islâmica. A «Reconquista» destruiu-a completamente, matando ou reduzindo ao exílio a maioria dos seus representantes. O alfabeto árabe, contudo, difundira-se até entre os Moçárabes, utilizado para escrever os seus dialectos latinos.


Fonte - Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques
História de Portugal Volume 1 (Das origens ás revoluções liberais)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Doação do Castelo de Paderne




No ano de 1305 D.Dinis fez a doação do Castelo de Paderne ao mestre da ordem de Avis, D.Lourenço Annes .
Esta doação foi feita pelo monarca á ordem de Avis por muito serviço que me fizestes e em remiimento dos meus
pecados.


Em nome de deos Amen Conheçuda(1) cousa seia (2) a Aquantos esta carta virem que eu Don denis pela graça de deos Rey de Portugal e do Algarve ensembra(3) com minha molher Rainha dona Isabel e com o Inffante dom Affonso nosso filho primeiro herdeiro, querendo fazer graça e mercê a vós don lourenço affonso meiestre da ordem daviz e a vossa ordem e a vosso convento por muyto serviço que mi fezestes e em remiimento(4) de meos pecados e que aja eu parte em todollos bees que na dita ordem se ffezerem dou e dõo pera todo o sempre A vós e a a ditavossa ordem e convento o meu castello e a minha vila de paderna com o padroado da eigreja e com todos seos termios e con regoengo e com todo o direito e jus Real que eu hy ey e de direito devo A aver, também temporal como espiritual, dou e outorgo a vós e a a dita ordem e convento o dito castello e a vila de padernae e o padroado da eigreja Assi como de suso dito he e com ssas(5) entradas e saidas ecom todas ssas perteenças por jur derolamentos pera todo senpre E todos aquelles que esta minha doação a aguardarem sejam beentos de deos E os quecontra ela hir quiserem non lhis seja outorgado e ajam a maldiçon de deos e a ynha pera todo o senpre. E esta minha doaçon este en ssa(6) fermidõe E por tal que seja mays firme e mays estavil dou onde a vós esta minha carta seellada do meu seelo do chumbo feita a carta em Santarem primo dia de janeiro el Rey o mandou, francisque anes A ffez Era MCCCXLIII anos.

Liv.º 3º dÉl-Rei D.Diniz, de Doações e Foraes-fls.36.

1-Conheçuda-conhecida
2-Seia-seja
3-Ensembra-juntamente
4-Remiimento-remissão
5-Ssas-suas
6-Ssa fermidõe-sua firmeza

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Ponte Antiga de Paderne








A ponte de Paderne, que também designam como Ponte Romana, situa-se sobre a ribeira de Quarteira, nas imediações do Castelo de Paderne, e terá sido construída para servir o castelo.
A inscrição sobre o arco central, que refere o ano 1711, julga-se ser relativa à obras de remodelação, de que beneficiou também recentemente, para consolidação da estrutura, repavimentação do tabuleiro e recuperação dos muros.
A ponte é constituída por um tabuleiro rectilíneo, suportado por três arcos de volta perfeita, assentes em dois pilares sobre o leito da ribeira, reforçados por talha-mares.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Os Trabalhos de Arqueologia

Os trabalhos de arqueologia no castelo de Paderne remontam ao ano de 1987, tendo sido coordenados desde o início por Helena Catarino, numa iniciativa de valorização do património, levada a cabo pela Câmara Municipal de Albufeira.O primeiro estudo foi desenvolvido no ano de 1987 e contou com a colaboração de António Tavares, no que se refere à análise da torre albarrã.A sondagem arqueológica efectuada teve como objectivo específico identificar e definir sequências estratigráficas de ocupação, potências de terras acumuladas, verificação do estado de conservação de estruturas soterradas, e em último lugar avançar com hipóteses quanto a épocas de ocupação e de abandono.No âmbito da realização destes trabalhos arqueológicos, foram encontrados diversos materiais, actualmente, integrados na colecção permantente do Museu Municipal de Arqueologia. Do espólio encontrado, destacam-se as cerâmicas, sendo que as mais antigas são atribuídas cronologicamente ao século XIV, podendo estar relacionadas com produções malaguenhas ou valencianas, metais e espólio osteológico. A segunda campanha de escavações decorreu em 1998. A área intervencionada situou-se na capela e zonas limítrofes com o objectivo de desentulhar o espaço do altar, nave central e sacristia. Do espólio encontrado resultaram materiais como cerâmicas tardo-medievais, faianças do século XVII, e evidentemente os elementos arquitectónicos da ermida.Em 2002 e 2003, foi escavada uma área de 687m2 distribuída por nove sondagens, uma intervenção arqueológica no âmbito do projecto de musealização do castelo, por solicitação da Câmara Municipal de Albufeira, após várias reuniões com a Direcção de Faro do IPPAR, já que a autarquia realizou grandes investimentos no local.A primeira sondagem teve como objectivo a desobstrução da torre albarrã bem como a identificação de vestígios da calçada da entrada do castelo. A segunda sondagem permitiu verificar as fundações exteriores da muralha e desobstruir o exterior de todo o pano de muralha. Seguiu-se a limpeza da barbacã e da muralha à entrada da fortificação. A quarta sondagem viabilizou a identificação de casa com pátio interior e cisterna (Fig.1), junto à capela, sendo que as sondagens posteriores revelaram: uma rua com canalização a desembocar numa abertura da muralha a Sudeste. A sondagem n.º7 foi efectuada para limpeza da entrada da cinsterna e no sentido de permitir a delimitação do pátio pertencente à casa aí existente (Fig. 2).Na oitava sondagem foram identificadas estruturas habitacionais e construções viárias de várias épocas. Refira-se que a rua da sondagem n.º6 está intimamente rlacionada com esta última, encontrando-se no mesmo eixo. Verificou-se, igualmente, que a canalização de drenagem das águas desemboca na muralha, onde existe a respectiva abertura. A última sondagem permitiu avaliar a existência de estruturas habitacionais de casas islâmicas com remodelações cristãs e a determinação de uma nova rua.O espólio proveniente destes trabalhos arqueológicos, avaliado em cerca de 5 500 fragmentos de cerâmicas, 1000 registos de metais e ainda espólio osteológico, este espólio encontra-se em estudo no Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra, sendo que o restante integra, actualmente, o sector de reservas do Museu Municipal de Arqueologia.A última intervenção no local foi realizada durante cerca de seis meses, em 2004, numa área de 350 m2, por forma a dar continuidade às escavações a Oeste e Sudeste da muralha e por forma a permitir uma contextualização histórica dos materiais encontrados.No que se refere à muralha, o objectivo foi a identificação de patologias, a determinação das características físicas e das técnicas construtivas. Em Setembro de 2004, iniciaram-se os trabalhos de restauro das muralhas da fortificação, procedendo-se a ensaios com cubos de taipa e começando-se com as crivagens das terras retiradas da escavação.Embora, actualmente, o castelo de Paderne, seja propriedade do IGESPAR, a Câmara Municipal de Albufeira tem, desde a década de 80 do século passado, colaborado e apoiado os trabalhos de arqueologia desenvolvidos, no âmbito de um projecto de musealização, cujos intervenientes são a entidade de tutla-IGESPAR, a professora Helena Catarino e a CMA.


Fig. 1 - Casa com Pátio Interior e Cisterna



Fig. 2 - Cisterna


Obrigado ao Amigo Pedro Oliveira Pinto

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Guerra de Fronteira na Reconquista



Durante a reconquista uma das principais formas de guerra entre Muçulmanos e Cristãos foi através de conflitos de fronteira.
Essas hostilidades apareciam sob a forma de Fossados, Algaras e Presurias.
Os Fossados e as Algaras eram as principais actividades bélicas das comunidades fronteiriças.
Estas actividades, quer dum lado da fronteira quer do outro, eram sem dúvida a principal fonte de riqueza e sustento .
As incursões para lá das fronteiras eram campanhas sazonais, pois tinham de ter em conta uma rápida mobilidade, evitando assim o Inverno. Por norma os ataques surgiam nos períodos em que as colheitas já estavam feitas.
O termo Algara define as expedições que eram feitas com o objectivo de pilhar e destruir os campos, tudo isto num curto espaço de tempo. Quanto ao termo Fossado, eram expedições em território inimigo mas de grandes proporções em que já participaria um exército organizado com cavaleiros e peões.
As Presurias eram ataques com ocupação afim de conseguir melhores terras tendo em conta o seu aumento demográfico. Desta forma consegue-se o alargamento de um território de um estado à conta de outro estado inimigo.
Por norma estas ocupações eram bastante limitadas, terminavam quando a comunidade em expansão encontrava um ponto forte de defesa ( torre, castelo ou vila).
Segundo Pedro Gomes Barbosa na sua obra " Reconquista Cristã" a Presuria só era eficaz e efectiva em duas situações :
-Retracção do aparelho defensivo do inimigo, acompanhado pelo abandono de parte significativa da população.
-Ocupação da fortaleza ou construção de uma nova por parte do Rei ou Senhor da terra.

Obra consultada " Reconquista Cristã" de Pedro Gomes Barbosa


sexta-feira, 11 de junho de 2010

O Sufismo no Gharb




Com a derrota dos Almorávidas na batalha de Ourique dá-se o início de um novo período de fraccionamento do Andalus em reinos independentes, que ficou conhecido como os segundos Reinos de Taifas.
Durante este período no Gharb Al-Andalus constitui-se o Reino da Taifa de Silves. De inicio foi governado pela família dos Banu Al-Mallah, sendo depois dominado por aquele ficou na história como o grande Mestre do Sufismo no Gharb Al-Andalus, Abu Al-Qasim Ibn Qasi.
Ibn Qasi era natural de Silves e foi provavelmente um muladi, ou descendente de cristãos convertidos, de origem romana, dado que se pensa que o seu nome de família viria do romano Cassius.
Trabalhou como funcionário da alfândega em Silves e opta por uma vida de meditação e recolhimento, entregando metade dos seus bens aos pobres e refugiando-se numa Zauia ou Azóia onde inicia um caminho na busca de Deus, fundando uma confraria designada por Movimento Muridíno.
Essa Zauia deu origem ao famoso Ribat da Arrifana, em Aljezur, que constrói com a restante metade dos seus bens, e que se torna sede da sua Cavalaria Espiritual, incluindo uma mesquita, celas para os seus discípulos e cavalariças.
Ibn Qasi estabeleceu uma aliança com D. Afonso Henriques, que este simbolicamente sela oferecendo-lhe um cavalo, um escudo e uma lança, e que será a primeira estabelecida na Península entre Muçulmanos e Cristãos.
Esta aliança foi a prova de que Muçulmanos e Cristãos gnósticos se encontram irmanados pelos mesmos ideais de tolerância e fraternidade e em clara oposição aos radicais de uma e outra religião. Ibn Qasi foi assassinado em 1151 pois a sua posição foi considerada um desafio ao Islamismo ortodoxo e fanático profetizado por Ibn Tumart e Abdel-Mumen.
Como escreveu Adalberto Alves na sua obra “As Sandálias do Mestre”, “o fim trágico de Ibn Qasi, como mártir da causa dos Muridínos, não foi em vão. A sua rebeldia, face ao poder almóada, tal como a rebeldia de D. Afonso Henriques, face a Leão e Castela, foram dois pólos espirituais do ideal sofiocrático que daria lugar ao surgimento de Portugal”.
Apesar de tudo este movimento Muridine ainda manteve uma praça durante alguns anos, Tavira, governada por Ali Ibn Al-Wahibi, atacada pelos Almóadas dia e noite a partir de Cacela, a qual só foi conquistada quando o próprio Abdel Mumen comanda em 1167 uma força vinda de Marrocos.
O Sufismo é a via espiritual e mística do Islão, também chamada de Islão do coração ou Islão do amor, dado que os Sufis não se regem pela sua mente, mas pelos seus sentimentos.
É Islão da inteligência, da tolerância e da busca do conhecimento.
Para os Sufis toda a realidade comporta um aspecto exterior aparente e um aspecto interior escondido, ou seja gnóstico ou esotérico.





As origens do Sufismo remontam ao tempo do próprio profeta Muhammad (rassul Allah sallallâhu alayhi wa sallam), podendo advir dessa altura a própria designação Sufi do Árabe Ahl as-Suffa ou a gente do sofá, dado que os seguidores do Profeta se sentavam com ele num sofá na sua casa em Medina.
Outras possibilidades são ter origem na palavra Assafaa (pureza) ou as-Suf (a lã), dado que os primeiros sufis se vestiam com lã.
Este entendimento de que o Profeta foi o primeiro Sufi tem por base a forma esotérica e mística de como o Corão lhe foi revelado e o carácter de confraria existente entre ele e os seus mais próximos como sejam a sua filha Fátima e seu genro Ali Ibn Abu Talib, e incluindo a forma como a mensagem Corânica foi transmitida.
Cabe aqui uma referência à importância das mulheres no misticismo Sufi, que por via do Islão ganharam um estatuto igual ao dos homens, sendo-lhes reconhecido o direito à herança e ao divórcio, coisa que na Europa ainda tardaria uns séculos.
Os Sufis buscam incessantemente o conhecimento e a sabedoria através da meditação, de práticas iniciáticas e da transmissão do conhecimento no seio de confrarias dirigidas por um Mestre ou Shaykh.


Frederico Mendes Paula


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Paderna na Crónica da Conquista do Algarve







Como o Mestre se lançou sobre Sylues em quamto seu rey Almafon era fora e como pelejou com ele e [lhe] tomou o lugar


Per esta gujsa que aveis ouvido (a)prouue e Deos de dar a vila de Taujra em poder (aos Christaos ) e d(e)spojs que a leixou (o Mestre) segura de todo o que lhe compria foy a Selir e tomou por força (e) entam foy çerquar Paderna (que he hum ) castelo forte (e) muy boom de gran[de] comarqua em deredor antre Albufeyra e a serrae estando sobre ele mamdou gente[s] ao teermo de Sylues que fosem tomar a Tore destombar (que dante(s) fora sua) e foram la e ouueramna outra vez e quando Almofão seu Rey deles que estaua em Silues soube como aquela(s) campanha(s) aly erom sayo a eles do lugar com a majs campanha (que pode) porque lhe diserom que estaua aly o Mestre com todo seu poder e o Mestre como soube que era fora alçouse logo de sobre Paderna e veyose lançar sobre Silues. Almofon jndo pera (a)Tore destombar achou novas que nao era (al)y o Mestre e que nao (estaua aly) majs gemte que aquela que tomara a Tore e a defendyon porem qjs la chegar e (loguo muy) apresa se tornou pera a vila e loguo se temeo do que era e o Mestre lamçoulhe hua çilada (que) lhe tnha ja tomado as portas e as gemtes repartidas por elas e elRey Almofon chamom da Zoya porque era lugar desembargado encomtrouse aly com ho Mestre que tinha a guarda dela e elRey Mouro vinha com todolos seus jumtos e aly se vyo o Mestre com gramde trabalho com eles e foi a peleja (com eles) em hum campo se fora junto com a vila omde hora esta hua jgrei(j)a que se chama Samta Maria do marteres e os Moros fizerom muyto por cobrar a porta e se meterom sob(re) a Tore da Zoya que he bem saida e marcos pera fora majs esto nao lhe(s) prestou nada porque (os) Christãos andauom em volta com eles e asy entrarom com eles pela porta (da vila) e aly foy a peleja tao gramde em guysa que mais Christãos morerom aly que en outro lugar que se no Algarue tomase e elRey Mouro andou pela vila em deredor e qujserase acolher pelo postiguo da treição a hum alcaçar em que ele moraua e achou o postiguo foy pera se acolher per otra porta da vila e achoua e emtão de desesperação deu [d]as esporas ao cavalo e fogio e pasando por hum pego afogouse aly e o acharom de(s)pojs morto e (ag)ora chamom aquele lugar o pego de Almofom; dos Mourros que ficarom se acolherom ao alcaçar e (o) trabalharom de defender [em]quamto podiom e o Mestre (n)ao os qujs combater que segurouos que vj[v]esem (a vila) se quyjesem e aproueytasem suas herdades e lhe conheçesem (aquele) senhorjo que conheçyão ao Rey Mourro e asy [o] fez aos outros lugares que tomou e não combatiom os alcaçares em que se os Mourros se recolhyon mas segurauaos a que vivesem na(s) terras por serem aquelas (a)proveitadas e de(s)pojs foi aly hua jgreja catedral e foy feyta [a] çidade então se tornou o Mestre a Paderna que ante(s) tivera çercada e tomou a vila e o castelo por força e não (se) preytejarão com eles matando os Mourros por dous cavalejros Frejres que (a)hy matarom esta vila de Paderna se mudou (n)aquele lugar que agora chamom Albufeyra po(rem) ainda a otra esta murada e corrigida com seu castelo e hua cisterna muy boa dentro .



Cronica da Conquista do Algarve

O Castelo de Paderne: Localização Geográfica


O castelo de Paderne é, actualmente, a melhor representação islâmica visível no concelho de Albufeira. Foi construído, na época de ocupação almóada, período em que se temia o avanço da Reconquista e, consequentemente, se verificava uma insegurança geral por parte dos governantes muçulmanos. Daí o desencadeamento de uma política de construção de uma rede de fortificações, não só nas áreas urbanas, como foi o caso dos castelos de Albufeira, Loulé, Silves, Faro mas, também, em áreas rurais como em Paderne, Salir, Alcoutim e ainda, como o castelo do Belinho.
O castelo de Paderne, a 100 m de altitude, edificado no topo de uma colina constituída por formações do Jurássico Superior, encontra-se assinalado na Carta Militar Portuguesa n.º 596 de 1951, com as seguintes coordenadas: X-194.1 e Y-21.3, marca bem a sua presença na paisagem. As encostas adjacentes à muralha do castelo apresentam inclinações de valor superior a 30%, correspondendo a um meandro fortemente demarcado relativamente à Ribeira de Quarteira. Situa-se numa espécie de península formada pela Ribeira de Quarteira e o Barrocal algarvio e entre duas importantes cidades: Loulé e Silves.
Encontra-se este imóvel numa Zona Especial de Protecção, Portaria n.º 978/99 publicada em DR (2ª série) com vista à sua salvaguarda e valorização.






A actual sede de freguesia encontra-se a cerca de 2 Km para Norte e a cidade de Albufeira, para Sul, dista aproximadamente 8 Km, em linha recta. Refira-se que a freguesia de Paderne apresenta alguns relevos vigorosos, localizando-se a cota mais elevada a 214 m de altitude, no lugar de Cabeça Aguda, a Nordeste, no limite do concelho. A Norte, os Montes do Arieiro e dos Lentiscais formam como que acidentes naturais, prolongando-se pelo Cerro do Espragal e Cabeça Aguda. Segue-se uma extensa zona relativamente baixa e aplanada, onde se localizam as bacias dos três cursos de água da freguesia: a Ribeira de Alte, a Ribeira do Sumidouro e a Ribeira do Algibre que depois de juntas formam a Ribeira de Quarteira.



Agradeço o texto e a imagem ao Amigo Pedro Oliveira Pinto, pela sua colaboração e ajuda

terça-feira, 18 de maio de 2010

Uma crónica tendenciosa




Frei Agostinho de Santa Maria escreveu no seu “Sanctuario Mariano” acerca do Castelo de Paderne:
Querem alguns que este castello seja obra e edificação dos mouros. Mas eu mais me inclino o mandaria edificar o Mestre da ordem de S. Thiago, Dom Paio Peres Corrêa, porque os mouros não fizeram cousa que merecesse nome”.

Ataíde Oliveira na sua Monografia de Paderne discorda e clarifica a sua posição em relação aos mouros:
Erradamente escreve o frade Agostiniano dos mouros, pois desconheceu a sua historia(…) fundaram em Silves escola de onde saíram sábios eminentes; distinguiram-se na guerra como claramente se conclue da historia do Crusado , na tomada do castello de Silves, no tempo de D.Sancho I, e não despresaram as sciencias, antes deram-lhes grande desenvolvimento.
Fr. Agostinho, como outros nossos chronistas, foi victima de sua má vontade contra os mouros, pelo ódio da raça e das crenças. Esta é a verdade. Se pois, o castello de Paderne se entregou aos christãos, quando ainda não era nascido Dom Paio, como o poderia elle ter fundado?”


Em 1189 após a tomada de Silves um cruzado relatou o seguinte:
Estes são os castellos de que os christãos se apoderaram depois da tomada de Silves : Carphanabal, Lagus, Alvôr, Porcimunt, Munchite,Muntagut, Caboiere, Mussiene, Paderne”.


Segundo Ataíde Oliveira o castelo tem fundação pré-romana, dos tempos proto-históricos, ou talvez pré-históricos.


Frei Agostinho de Santa Maria(ou Manuel Gomes Freire), era filho de António Pereira e Catarina Gomes é natural de Estremoz, onde nasceu a 28 de Agosto de 1642. Professou a Regra dos Agostinhos Descalços a 18 de Dezembro de 1664, tendo exercido na Ordem vários cargos.Compôs diversas obras e traduziu outras do latim, espanhol e italiano. A sua obra mais notável é o Santuário Mariano onde recolheu todas as tradições referentes ao culto de Nossa Senhora nos diversos templos nacionais e da diáspora.Faleceu em Lisboa a 2 de Abril de 1728

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A Reconquista - do Condado até ao Gharb



A Reconquista


A reconquista de todo o território peninsular vai durar cerca de oito séculos, só ficando concluída em 1492 com a reconquista do reino muçulmano de Granada pelos Reis Católicos. Em Portugal, a reconquista terminou com a conquista definitiva de Silves pelas forças de D. Afonso III, em 1253.
Os reinos ibéricos puderam beneficiar do apoio de várias Ordens Militares, das quais se destaca a Ordem dos Templários, uma Ordem militar e religiosa instituída com o propósito da cristianização.
Portugal, viria a beneficiar das Cruzadas em trânsito para o Médio Oriente, tendo estas desempenhado um papel importantíssimo na tomada de algumas cidades portuguesas e subsequente expansão, bem como na fundação do próprio Reino.
Portugal e a sua existência como entidade politica independente no Oeste peninsular, está intimamente ligada ao processo da Reconquista. A Reconquista Cristã deu-se com a formação do condado Portucalense em 1096, quando D. Afonso VI separou este território da Galiza para o conceder ao conde D. Henrique de Borgonha, que viera para a Península para ajudar na luta contra os mouros. O condado foi concedido a D. Henrique a titulo de dote hereditário, pelo seu casamento com D. Teresa, filha de D. Afonso VI, quando D. Afonso VI separou este território da Galiza para o conceder ao conde D. Henrique de Borgonha, que viera para a Península para ajudar na luta contra os Mouros. O condado foi concedido a D. Henrique a título de dote hereditário, pelo seu casamento com D. Teresa, filha de D. Afonso VI. Pode-se mesmo afirmar que Portugal é um produto da reconquista cristã. A autonomia politica e o alargamento territorial do reino de Portugal, resultaram da luta contra os muçulmanos que dominavam a Península.





Rumo ao sul

Cronologia da conquista no Gharb

D. Sancho I (1185 – 1211): levou as suas ordes até Sevilha e conquistou a cidade de Silves. Os muçulmanos, com a ajuda dos Almôadas, contra-investiram e conseguira reconquistar aquela cidade algarvia.

D. Afonso II (1211-1223): Batalha de Navas de Tolosa – reforço dos guerreiros cristãos (ordens religiosas, forças guerreiras concelhias milícias nobres ibéricas e francas) e desagregação do império almôada. Fragmenta-se o território muçulmano num conjunto de reinos. No reinado de D. Afonso II acentua-se em Portugal a tendência cruzadística. Aproveitam a passagem dos cruzados pelas costas portuguesas (5ª cruzada) e conquistam a cidade de alcácer do Sal.

D. Sancho II (1223-1248): os reis de Leão e Castela empreendem uma série de conquistas, como Cáceres, Mérida, Badajoz e posteriormente, Córdova e Sevilha), cortando o apoio às forças muçulmanas do Alentejo, permitindo uma mais fácil conquista e anexação de praças e fortalezas nessas zonas. As ordens militares dos Hospitalários e Santiago tiveram papel preponderante nessas conquistas, assim como as mílicias feudais e concelhias.

D. Afonso III (1248-1279): deve-se a este rei a conquista definitiva do território com a conquista das cidades de Silves e Faro, bem como das zonas de Porches e Albufeira. Surgem alguns conflitos entre o rei de Portugal e o rei de Castela que também reinvindica va a posse do território algarvio. Só em 1267, foi firmado um tratado entre os dois reinos – Tratado de Badajoz – em que o rei de Castela abdicava de quaisquer direitos sobre os territórios algarvios a favor de D. Diniz (seu neto) e o rei de Portugal renunciava a qualquer pretensão sobre territórios na margem esquerda do Guadiana.

O rio Guadiana passa a ser linha divisóra entre os dois territórios e em 1268, D. Afonso III passou a intitular-se rei de Portugal e do Algarve. A disputa de territórios entre o dois reinos só terminou em 1297 com a realização do Tratado de Alcanices – o território português adquire os limites territoriais que, praticamente não foram alterados até aos dias de hoje.